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O FIO INVISÍVEL

É na barriga que o primeiro nó se dá. Lá, no nosso meio, que o nó faz junção com o fio, necessário que alimenta e transforma. O primeiro fio é uma conexão tão visceral e tão difícil de descrever. Será que todas as ciências já deram conta de explicar tudo o que se transmite?

Foi com esses pensamentos que ela viu seu menino se afastar. Um serzinho que sabia para onde ia, o que faria e quando voltaria. Disse que iria dar frutas para os bichos. Foi sem pedir nada, nem ajuda, nem companhia, nem permissão. Nada. Só pegou as bananas e se foi.

Ela foi vendo o fio se esticar e desaparecer até que sentiu um clique. Um barulho de algo que rompe. Um som inaudível para os que estavam ao redor, mas ensurdecedor para ela, que sabia e vivia o momento da separação. Tudo ficou em silêncio.

No início era umbilical e tinha função bem definida, cientificamente comprovada. Depois esse condutor foi se afinando até se desfazer. De cordão passou para corda, de pular, de amarrar até virar uma linha fina de cetim, linda. Uma fita de histórias noturnas, de mágicos e fantásticos.

E foi na barriga que o nó se deu mais uma vez. Um nó diferente, que fez com que a parte utilitária e imprescindível da maternidade se desfizesse. O nó contorceu internamente o medo e a falta de sentido. Ela tinha cumprido uma longa e vital etapa. Alimentar, cuidar, lavar, ensinar, vigiar, proteger. 

Agora o tempo diria se a linha continuaria ligando-os. Chegaria um tempo, não muito longe, que ele voltaria se quisesse, se estivesse com vontade.  Ela esperava que sim, não por acordos sociais, por culpas cristãs ou por medos. Mas voltasse por amor, por vontade, por querer. 

Se adiantava em pensamentos futuristas fazendo paralelo com suas histórias. Quais fios ela mantinha por afeição, quais mantinha por falta, por dor. Um matutar que revelou o quanto o gostar se relaciona com projeções e expectativas. Afeto condicionado ao que lhe dão em troca. Amor camuflado por convenções. Eu te amo se você estiver dentro da lista finita de coisas que eu planejei e projetei.

A gente deveria aprender a se relacionar incondicionalmente com todos os seres. Amar sem esperar nada. Desde a moça do supermercado até os afetos mais próximos. Um baita exercício para a vida. 

Ela não percebeu a chegada dele. Veio feliz, sujo e cantarolando tudo sobre a sua mini aventura. Seu sorriso largo apaziguou a dor do silêncio que ainda invadia seu estômago. Abraçou, sentiu o cheiro de sua pele suada e o dia seguiu, sabendo que o fio agora era docemente invisível.