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Carta para o futuro

Oi eu, 

Escrevo essas linhas para dizer que as sementes plantadas no seu agora brotaram e já podemos ver árvores com boas raízes, fincadas em terrenos férteis e com folhagem das mais variadas cores. Caminhe, tropece, caia, mas eu, daqui da curva, posso te dizer que a estrada vai voltar a ser de terra molhada com novos brotos e árvores bem enraizadas.

Leia com calma, lembre-se de respirar e acredite no impossível.

Somos todes seres iguais. Todes. Os corpos agora são para ancorar nossas vidas, um instrumento lindo do viver e do sentir. O mais incrível é que quanto mais velho, mais admirado. Rugas, cabelos brancos e olhos sábios são sinais de plenitude. Traços que relatam os caminhos de quem viveu em sintonia com o lado mais selvagem. Parece muito utópico? Posso imaginar o quão difícil seja, daí desse ponto da estrada, acreditar que a indústria da beleza não exista mais, nem padrões a serem seguidos ou até que os sutiãs viraram objetos de museu.

Você ainda tem dor na coluna? Lembro de quando era garota e precisava se curvar toda para voltar para casa tarde da noite, torcendo para ser invisível, como um tatu bola, para chegar em casa com segurança. 

As mulheres não morrem mais. 

Quer dizer, morrem sim, de velhice, de alguma questão genética. Mas não temos mais mulheres assassinadas. Nenhum corpo pertence a ninguém. Não mais tememos por nossas vidas. Percebemos, mesmo que tardiamente, que as demandas da luta feminista, estão interligadas a questões fundamentais de como a gente se relaciona no mundo. Não é possível pensar em igualdade de gênero sem rever o sistema econômico e religioso. Só reestruturando as bases sociais para que os corpos femininos e todas as outras “minorias” vivam de forma liberta.

As mulheres negras são ouvidas, admiradas, amadas. Elas não perdem mais seus filhos, não são violentadas, não trabalham em serviços degradantes. Quer saber uma novidade? Cada ser limpa e cuida da sua própria casa e, em pequenas comunidades, cuidamos das crianças e dos idosos. Te lembra alguma coisa? Sim, a sabedoria dos povos indígenas…

Fico aqui querendo que você creia nesse futuro improvável, como quando assistia aos jatsons ou de volta para o futuro. Como fazer isso se, diariamente, assuntos como a redivisão do trabalho doméstico e reprodutivo, a opressão de gênero e racial devem ser pautados e discutidos?

Te conheço, deve estar pensando que a igualdade de gênero é semelhante ao skate voador que nunca virou meio de transporte. Utopia e fantasia. Sei que só no dia de hoje saiu notícia para eleger a vagina mais bonita do Brasil e que continuam em queda os empregos formais para as mães. Difícil mesmo vislumbrar um futuro de igualdade…

Mas não esqueça de que como você, outres estão trilhando caminhos semelhantes. Recordemos nossa poesia: 

Nossa voz será ouvida, nossa sabedoria será creditada.

Era mulher girafa

O peso da ausência esticava a goela

Quis ser amada pela escassez

Enclausurada pela sujeição

Mulher peluda, desnuda de coragem

Desfez-se de si, sem verbo

Era mulher foca

Dócil e idiota

Perdeu seu coletivo e deixou-se secar

Sua pele ficou nas pedras

Foi roubada

Sufocada, calada, calejada

Sua substância não permitiu seu fim

Sua solidão é sua cura

Sua voz é seu oráculo

Sua sabedoria será seu hábito

Alessandra Effori, dezembro de 2021.