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Carta para Mme. Pavlova

Endereço essas singelas letras para me retratar. Lamento confessar, mas fui responsável por deixar um item caríssimo à senhora ir por água abaixo. 

Vou tentar refazer todo o percurso e espero que ao final dessa carta possa me perdoar por ato tão vil.

Tudo começou com um sonho, um sonho de grande parte das meninas. Voar por aí, dar saltos como golfinhos e alcançar a tão sonhada delicadeza, algo determinante para seres de nosso gênero. 

Meu problema foi que eu nasci enorme, enorme mesmo. Sempre a última da fila, sempre sem par no baile. Uma vez tive até que dançar como um caipira na festa junina por falta de pretendentes da minha altura. Essa enormidade não me permitiu ser bailarina. A professora do bairro foi categórica: Não, não e não. Ela não pode fazer ballet, é alta demais. Não serve, não está no código, nas regras do baile. Fui encaixada no jazz, naquele estilo livre, onde todas que de alguma forma não se enquadravam, eram enviadas. Eu adorava, me esforçava, me divertia e me aventurava por passos mais tortos e mais condizentes com o volume do meu corpo. Mesmo feliz, sempre ficava no canto da alma aquela vontade escondida de algo não consumado. Eu conhecia bem a grade de aulas daquela pequena escola. Depois do jazz vinha o ballet e, do minúsculo banheiro de trocas, eu podia ver escondida, através de uma janelinha em cima do w.c., a aula. Nesses momentos de regozijo, eu abençoava a minha imensidão. Meus 180 centímetros me permitiam acompanhar aquela orquestra de corpos magros, ligeiros e precisos. Me sentia como um fantasma dentro de um castelo, observando os hóspedes, por buracos ocultos nas paredes, atrás de quadros ou dentro de armaduras medievais. E lá estava eu, no meu momento de espiã infiltrada quando o fato se consumou. A heresia foi realizada. Num movimento brusco e desordenado de um corpo gigante, lancei a sapatilha diretamente para o vaso. Vi aquele objeto imaculado mergulhar em águas impuras. Cometi um pecado mortal. O ato que me fez largar o jazz e não mais voltar a dançar em minha infância. 

Peço perdão, Ana. 

Hoje sei que meu estirão me proporcionou diversas falhas motoras e essa foi uma delas. Creio que as deusas da dança tenham me perdoado, pois, depois de adulta, voltei a frequentar com regularidade concertos de dança e até a me arriscar no sapateado espanhol. 

Certamente eu bloqueei qualquer interesse pelo ballet clássico. Nunca aprofundei meus conhecimentos nessa arte. Penso que talvez me sentisse impura para tais informações. Minha religião foi a dança contemporânea e minha missa era assistir aos espetáculos do grupo corpo, pina bausch, quasar, ballet da cidade, entre tantos outros. Eram minutos de puro nirvana. Do choro ao gozo. Do desejo à fantasia. Era na frente do espelho que imitava os movimentos e criava minhas coreografias, imaginando um corpo de baile de meninas gigantes, com pernas enormes, cadenciadas pelos desencontros e descompassos. 

Recentemente a vontade de dançar voltou.  Novos improvisos e novas melodias rondam minha cia de dança imaginária. Estamos montando um espetáculo novo no qual podem participar quem quiser, do jeito que quiser. Não há regras e nem códigos a serem seguidos. Esse anseio anda rodando tão forte que semana passada sacudi a saia, o sapato tacheado e risquei o chão de taco. Depois passei cera no chão e tornei a guardar os itens empoeirados. 

Agora aguardo o momento de retornar meu bailado não mais como espectadora, mas como praticante.

Minhas reverências,

A.