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Postal

Os pés fincados no cimento teimavam em não se mexer, eram duas bolotas de pedra preta que afundavam vagarosamente. Dizem que o corpo fala e, lá estava uma parte dele, imóvel, retesada e com muita dificuldade para dar o próximo passo.

O vento batia diretamente em sua garganta, havia esquecido o cachecol, um item básico, um erro quase que fatal naquelas baixas temperaturas. O ar que vinha do vai e vem dos vagões e do passar dos transeuntes congelaram suas cordas vocais. Não saia nenhum som, nem de oi e nem de tchau. A impossibilidade de nomear o momento, de ter as palavras exatas para traduzir em som e movimento o que estava vivendo.

Os ombros doíam continuamente. Sua casa nas costas, sua vida em seus ombros. O peso do mundo nas omoplatas. Horas carregando objetos, roupas e itens que agora pareciam tão supérfluos e tão desnecessários. Pensou em largar imediatamente a mochila, mas temia a leveza, a falta que faria. Temia a sensação de não ter nada em contato com a sua pele, nem que fosse um tecido velho e surrado.

Os olhos lacrimejavam constantemente, uma mistura de vento gelado, choro contido e falta de movimento. Olhava fixamente para os trilhos da plataforma aguardando o momento certo, a decisão fatal que mudaria tudo para sempre.

Parou de ouvir os sons ao redor. O descompasso do coração era sentido nas orelhas, na cabeça e nas mãos. Não soube o que fazer, não poderia voltar, não conseguia seguir. Ali, naquele instante, era tudo o que tinha. Um corpo cansado, uma cabeça vazia e um coração dolorido. 

Queria se metamorfosear em cimento, em concreto, queria derreter e se tornar um tapete cinza que fosse pisoteado constantemente por tantos outros pés, rodinhas, patas, bitucas, gotas de café quente e chicletes. Quem sabe ser acariciada por um bicho de pelúcia que se perdera.

Não sabe quanto tempo ficou naquele lugar, naquela posição até despertar com o estrondo dos freios, do corpo de lagarta cinza, da imponência daquele transporte que levava e trazia vidas e histórias. Os vagões estavam carregados de memórias. Pensou que as companhias deveriam ter alguém encarregado das limpezas impalpáveis, incensos, rezas, sprays de ambiente para purificar o invisível.

Ali estava seu trem e era preciso se decidir. Era chegada a hora de partir. Entrou no minuto final e sentiu alegria. Seu próximo destino seria só dela e ninguém mais subiria ou desceria na sua estação.