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Pequenas batalhas

Dois corpos, dois olhares. Segundos de verdade intensa, pra valer, sem fingimento, sem personagem.

Ela pega na mão dele, os corpos se unem. Cheiro de pele, um corpo gruda no outro. A música embala, os pelos arrepiam, o balanço movimenta a alma. Pausa no tempo, nos pensamentos, na performance. 

Pausa nos traumas, nas tramas. Pele, som, toque e ritmo. 

Cerva e a vontade de fazer xixi. Faz xixi, lava as mãos e o olhar no espelho enferrujado e torto é inevitável. 

O reflexo aciona os tentáculos da baixa autoestima. Eles começam a surgir, subindo, ganhando espaço no banheiro. Reclamam do cabelo, da pele, enxergam novos pêlos na cara, os vincos estão mais profundos, você viu?

Cada braço do polvo ganha confiança e vai se esticando e atacando corpo, alma, relembrando fracassos, mexendo em lembranças amargas, rememorando relacionamentos bostas. Tudo naquele instante interminável entre o xixi e as batidas impacientes de quem aguarda a sua vez, entre os minutos anteriores de tesão e os minutos que virão a seguir.

Mexe na bolsa e encontra seu estilete, um instrumento obrigatório em dias atuais, nunca se sabe quando vai ser necessário o uso.

A luta começa, cada tentáculo vai caindo e inundando o pequeno espaço. O passado, a infância, as memórias inventadas e as vividas, tudo, tudo vai se rompendo ao som de estilete e de carne cortada. Descabelada, coberta de sangue e de gosma de polvo sai do banheiro. 

Ergue a cabeça e percebe que outras batalhas foram travadas em sua ausência. Distingue outros corpos cobertos de líquido, empunhando seus estiletes.

Volta para a mesa e ele também está sujo, com a mini faca ao lado do copo. Coloca cuidadosamente seu estilete ao lado do dele.

Sorri. Brindam e o frenesi volta a invadir a atmosfera até a próxima ida ao banheiro, aguardando a próxima batalha.