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Floresta de Jacintos

O cheiro adocicado do waffle ou, como eles dizem lá, do gaufre, invadiu a memória e a floresta retornou viva na lembrança.  Jacintos e chocolates se misturaram. 

Um tapete todo azul. Lembro-me bem do casal amigo que tirara a foto. Iriam partir em breve para outro destino e não nos veríamos mais, talvez nunca mais. Ela, que registrou o momento, deve ter gostado da composição dos verdes, dos cinzas e do enigma. O mistério e a estética. A ausência do rosto daquela que teme e o pulsar de meninos.

Ali eu era ancora e medo. Ali eu era chegada e partida. Apertava cada mãozinha com força, na certeza de que não me escapariam. Um passeio de despedida de mim, deles, dos parques, dos hábitos, dos erros.

Combinamos secretamente de sermos felizes naquele momento, mesmo sabendo que faltava ar para cada um de nós. Aquele ar rarefeito que só o desconhecido e os recomeços causam. Vivi duplicada. Estava presente e ausente. Era como um processo de tradução simultânea do francês para o português, do passado para o futuro. Lembro de ser flor roxa e pedir perdão. Perdão por chacoalhar cada certeza tão cedo. Depois, na beleza das sincronicidades, é que conheci o significado do jacinto. Lá estava eu, num tapete de perdoais melancólicos. 

Rever a imagem me traz assombro ao perceber como me descolei rapidamente daquele eu inventado por quase uma década. Um eu que aprendeu a bufar como eles, a apreciar a calmaria e a beleza dos corpos naturais, das simplicidades do viver e das maravilhas gastronômicas. Como pude por tanto tempo mentir sobre a banana? Dizia aos rebentos que era uma delícia, mesmo sabendo intimamente que não era verdade. Nanica, prata, da terra, maçã, ouro. O desejo pelas frutas ouros só foram descobertos na volta. Hoje eles sentem saudades da profusão de cerejas e amoras.

O caminho visto pelas costas será sempre nostálgico?  Para eles, certamente. Eu ressignifico a beleza e o caos para saborear queijos minas e minha floresta interna de sentires.