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Fios desencapados

Abri minha mala de ferramentas, peguei alicate, tesoura e joguei fora a fita isolante. Desencapar fios era um ato de coragem, falta de vergonha e aventura. 

Desembrulhei meus cabos com alegria e fui trabalhar. Os efeitos surgiram logo no elevador. 

Entrei e lá estava ela, uma senhora cheirosa, colorida e que carregava em sua cabeça um enfeite meio chapéu, meio flores. Logo pensei que aquela mulher deveria ter desencapados os seus também. Será que o curto-circuito era recente ou algo antigo, será que suas conexões teriam gerado bons incêndios?

Com meus fios soltando faísca, eu logo arrisquei a dizer meus pensamentos em voz alta e perguntei a ela sobre seus condutores.  Ela sorriu e engatou uma conversa gostosa e interessante. Sabia muito sobre gente que se expressa com espontaneidade, com verdade e curiosidade pelo mundo e pelos outros. Tivemos um lampejo de conversa, no tempo que uma descida de elevador permite, mas eu sabia que ela era alguém disposta a dizer suas verdades mais escondidas, alguém que admite seus medos e seus desejos.

Os meus choques continuaram satisfatórios e produziram boas faíscas na calçada. A vendedora de bolos estava com seu rádio ligado e a melodia me fez dançar. Dancei sem me importar com olhos e reprovações alheias. Não foi um dançar comedido, tímido, foi uma chacoalhada de esqueleto rodopiante, entusiasmada. Pulei, gargalhei e até suei o buço, nos pequenos minutos de espera entre o sinal verde e o vermelho.

E assim seguiu-se aquele dia de impulsos verdadeiros. Dia em que fiquei mais perto daqueles que são mais divertidos no vestir, no andar, no falar e no viver. Daqueles que tanto admiro e até invejo, como os títeres desengonçados ou bufões que enxergam, com suas lupas, os traços mais escondidos e temidos. 

Voltei para casa, cansada e feliz, por tentar viver, ao menos um dia, sem tanto medo de julgamentos e sem carregar tantas responsabilidades e cobranças.  Ciente de que para perder o medo de se expor é necessário muito trabalho, muita audácia e muitas ferramentas.  Sigo na caminhada.