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Corrida de canetas

Quando era adolescente Lu brincava de criar caminhos em papéis supostamente imaculados. Criava pistas e colocava obstáculos. Pedras, troncos, pontes, fendas e, com a caneta empunhada de um jeito único, deslizava a tinta sobre a estrada de maneira a ultrapassar as barreiras. A graça era chegar ilesa. Uma sábia guerreira que conseguia afastar os percalços de tal maneira que sua rota era segura e certeira, mesmo que sinuosa.

Lu relembrou o passatempo no exato momento em que se via soterrada de entraves e questões. Sempre transitara por caminhos esburacados, pistas impossíveis de se atravessar. Levara o jogo para a realidade e tinha transformado seu cotidiano e sua trajetória em um verdadeiro parkur. Não aqueles que conseguem pular, atravessar, saltar, rolar por escadas e corrimões, mas daqueles que a cada pedra no caminho, tropica, tropeça, cai. Formam-se galos, roxos e desistências ao se depararem com paredes intransponíveis. Lu gostava desse modo de existência, sentia que era um tempero, que dava gosto de vida para seu cotidiano. Não estava infeliz e nem angustiada, sabia ver graça em tudo isso.

Seu último relacionamento tinha sido um rally dakar sessão noturna. Tinha mantido algo que nem os mais adeptos de paralelepípedos ou de pistas rochosas gostariam. 

Seu último emprego também teve gosto de labirinto do espelho, daqueles de parques antigos. Difícil de entender, de saber se a imagem refletida era a sua e mais difícil ainda era achar a saída. Lu não gostava de facilidades, situações simples, sem nenhuma dificuldade. Caso elas aparecessem, o desinteresse seria real, direto e certeiro.

Certa manhã, Lu acordou abatida por esse divertimento de infância, não queria mais brincar de pistas de canetas, queria se livrar dos ângulos oblíquos, das curvas sinuosas. Sabia que a vida não era diversão, que a vida era escola. Uma frase marcante que tinha escutado em algum Ted Talk de motivação, mas cansara do jogo do bate, cai, empurra, levanta. Queria algo mais calmo, sem tantas emoções. Ficou refletindo por bastante tempo, pensando em qual outros jogos poderiam transpor para a sua realidade. 

Resta um?  Perfeito para todos. A gente vai eliminando, um a um e sempre sobram uns 5 ou 6 em pontos completamente distantes e difíceis de se juntar.

Bolinha de gude? Que brincadeira boa! A gente vive mesmo esbarrando nos outros com frequência e empurrando para longe quem a gente quer ou não quer.

Soltar pipa. Lu decidiu trocar a corrida de caneta por pipas. Iria se unir aos amadores de altura e vento.