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Listas

Abriu a gaveta e retirou as 36 listas que havia feito. Ali estavam todos os motivos que a faziam adiar o término.

Relia constantemente suas ideias para não prolongar mais. Já haviam se passado 3 anos. Todo dia primeiro ela refazia sua lista. Talvez continuasse ruim, muito ruim, mas seria um ruim diferente. Precisava avançar.

Tinha trocado de sobrenome. Que bela merda havia feito. Precisaria refazer toda a papelada para voltar ao nome de solteira. Onde estava com a cabeça quando decidiu que seria propriedade de alguém por livre e espontânea vontade? Naquela época, 20 anos atrás, achava que era união. Uma ideia de início. Só viu fim e burocracia. Releu sua lista número 36 e esse motivo não aparecia mais. Não se importava mais com a burocracia. Iria enfrentar os cartórios, bancos e Serviços de Atendimento ao Consumidor com muita calma e alegria. Teria seu nome de volta.

3 crianças estavam no mundo. Um motivo seríssimo que a fez adiar a separação por anos. Como as crianças vão ficar sem A Família? Sofrerão demais com os pais separados? E o Natal, o aniversário? Demorou para entender que, mesmo pequenos, eles já sofriam. Foi estudando e lendo que percebeu as mentiras que todos contavam. Não era pelos filhos, era pelo medo. Era para manter casas funcionais para que eles pudessem ir e voltar em suas posições de homens de família, provedores. Ela tinha medo, mas a cada nova lista esse item foi ficando mais frágil, mais volátil, até que desapareceu. Seus filhos não seriam impedimento de nada. Não poderiam assumir essa responsabilidade futuramente. Não caberia a eles essa culpa e esse peso. Ficaria mais difícil? Certamente. Já se ocupava de tudo relacionado aos filhos, nada mudaria, apenas a sensação de partilha. Era só uma sensação que não se concretizava.

Havia deixado seu trabalho para cuidar das crianças e agora fazia bicos que não davam para pagar todas as contas. Tinham decidido conjuntamente que essa seria a melhor organização para a família. Como pode ser tão idiota? Como pode deixar isso acontecer.
Além dos inventários para adiar o fim, ela fazia contas, muitas contas. A cada alta na conta de luz, a cada subida no preço da carne, sua coragem de pôr fim a seu sofrimento arrefecia. Sabia que era incapaz de manter a casa funcionando com o dinheiro que ganhava naquele momento. Tinha voltado a participar de seleções para conseguir um trabalho novo.

Olhava com angústia e firmeza para sua lista composta agora de um único item. Sua independência financeira barrava a separação definitiva. Todos os outros motivos listados, como a culpa, os filhos, a esperança de que o relacionamento iria melhorar e o medo de ficar sozinha, tinham desaparecido ao longo desses anos. Agora sabia que não tinha mais motivos para adiar o fim. Suportara todas as dores, sabia que não poderia ficar pior.