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Baú de Ninharias

Bia andava preocupada consigo mesma e com os sintomas que se apresentavam cada vez com mais frequência. Embora não conseguisse descrever com exatidão quando o quadro se instalava e quando apareciam os primeiros sinais de sua enfermidade, sabia que eram desencadeados por estímulos inusitados e dos mais variados tipos. As alterações físicas e emocionais poderiam aparecer ao ouvir um podcast lavando louça ou ao assistir um esportista em seus momentos finais da conquista ao pódio. Poderiam ainda aparecer ao ver pessoas juntas, aglomeradas, cantando uma música de protesto e sonhando por um mundo melhor. 

As fontes eram variáveis e os sintomas eram inevitáveis. Começava com uma pontada certeira no peito, uma lança arremessada diretamente no sistema límbico, aquele responsável pelas comportas da represa lacrimal. Bia então iniciava sua cascata que, dependendo da intensidade, poderia ser de níveis torneira pingando até chegar em fonte abundante.

Bia precisava regular isso, não dava mais para ser pega a todo momento, passar pela desconfortável falta de controle emocional. Precisava com urgência encontrar um lugar para o incômodo em seu baú de ninharias sentimentais.

Eram situações desagradáveis, não conseguia represar suas lágrimas e elas vinham, abundantes ou não, em momentos que chegavam ao extremo ridículo. Como explicar um aperto no peito e um choro ao ouvir um podcast de superação? Como explicar rios torrenciais em uma cena de filme?  

Fazia tempo que os sintomas tinham aparecido, mas em seu glossário de mazelas essa doença ainda não tinha sido catalogada. 

Bia chegou ao seu limite exatamente no meio de uma série. A personagem acabava de descobrir o X da vida. Aquele treco que move as pessoas, que faz a vida de alguns seres mais especial que outros. Aqueles que conseguem viver daquilo que remexe as entranhas, que arrepia até os cabelinhos das partes mais íntimas de nossos corpos. Nessa cena ela sentiu todos seus sintomas explodirem, aflorarem. Foi dor no peito, lágrimas em formato pororoca e até um grito lancinante surgiu. 

Bia teve um descompasso. Uma crise existencial. 

Chorou, soluçou, massageou a forte dor embaixo dos seios. Se permitiu enfim ser atravessada por essa ausência, por essa falta de finalidade em que vivia. Daquele maldito proposito que tantos gurus e pessoas do bem sempre falavam. Daquilo que virou modinha. Razão de viver. Vocação. Paixão.

Sabia enfim a causa nobre de suas dores. Revelou-se então, na retrospectiva de seus destemperos, o real motivo para tal. Bia vivia sem algo que a deixasse extasiada. Algo que fosse só dela e de mais ninguém. Algo que a fizesse acreditar, mesmo que por instantes esvoaçantes, na humanidade, na sua beleza e no poder de criação e execução.  

Alívio imediato. Agora estava catalogado, agora existia espaço adequado para essa mazela em seu baú de ninharias. Aquilo que a angustiava agora poderia ser nomeado. Sintomas, causas e efeitos saíram do indizível e se tornaram conceitos, palavras.

Bia queria encontrar seus semelhantes. Gentes que sentissem e vivessem da mesma maneira. Queria agora identificar seres da mesma espécie que ela. Pessoas com a mesma lesão traumática. Não as anestesiadas, as conformadas ou as cínicas. Não aquelas que fingiam ter ou negavam saber. Queria ser amiga de todes que sentiam o peito adoecer, a garganta arranhar e o ar faltar ao presenciar outros seres conquistando e vibrando por seus momentos de eurekas. Sentia alegria com eles, por eles. Sentia inveja deles, sentia ciúmes, fracasso, desejo, ódio, amor, raiva. Sentia. 

Bia não queria encontrar a sua missão, talvez nem a tivesse, talvez a sua fosse a ausência completa dessa completude.