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Fusquinha

A menina, o fusca e a colisão em uma tarde longínqua. 

O fusca era novinho, limpinho e talvez estivesse esperando por esse trágico acontecimento.

A menina era novinha, sujinha e não esperava anunciar a sua própria morte naquele dia.

Cada um no seu galho, de um lado para outro, de uma grade para outra, de uma casa para outra. Brincar na rua fazia parte da infância, mas era de fantasias, ideias e sonhos que vivia a menina. Queria ser gente notada, mas naquele dia nem o fusca a notou. 

Eram nas férias de 2 dias que se aventurava por outros caminhos, escapava do ritmo da estrada sem fim. Acordar, estudar, deveres da casa, ausências e faltas. Aquele intervalo era importante antes de recomeçar a corrida.  Dia de brincar na rua com os vizinhos. A floresta foi criada, cada macaco foi se instalando em seus galhos e o asfalto virou campo minado e perigoso. Uma dezena de vezes nesse atravessar e re-atravessar para ser presa ou predador. Até que a colisão aconteceu e todos testemunharam o atropelamento e estranharam a ordem das coisas.

Demorou-se um tempo até que os gritos da menina fossem ouvidos por todos. “Mamãe, eu morri” ecoava até a casa da vizinha mais distante. 

Uma história contada por muitos. A história da menina que atropelara o carro.

A mãe estava lendo, atarracada ao seu salva-vidas literário. Uma característica que a menina também adquiriu depois de velha, mas isso é história para outra ocasião.

A mãe, absorvida pelo romance do momento, só conseguiu perceber a confusão quando a menina estava à sua frente. Vermelha, transbordando lágrimas e exausta de tanto gritar: Mamãe, eu morri!!!

Pensamentos confusos e profundos invadiram a mãe ao constatar a sagacidade de palavras tão agudas em uma boca cheia de dentes de leite. Sim, filha, você irá morrer muitas vezes ainda.  

Nenhum osso quebrado, alguns arranhões importantes, mas nada que não cicatrizaria brevemente. As avarias do corpo foram se curando com ligeireza, mas as internas foram se acumulando em um campo-santo desordenado.

Hoje a mulher relembra a história com um sorriso fechado de canto de boca cheia de dentes permanentes. Foi a primeira pequena morte de muitas outras que vieram.