fbpx

A culpa foi do feijão

Depois de muito refletir, percebi que a leguminosa mais popular em terras brasilis, tinha sido a responsável. Uma semente marronzinha com outros benefícios além dos prescritos por avós, mães e nutricionistas. Será que elas conhecem essa outra propriedade do Phaseolus vulgaris? Meu caro feijoca não tem nada de vulgar. Está certo que se você não o deixar de molho, cozinhar com folha de louro e outras diquinhas mais, ele pode causar flatulências. Mas acredito que um bom flato pode resolver muitas coisas.

Voltemos ao feijão. Foi através de uma singela garfada que percebi que não era presente. Presente no cotidiano, na real, verdadeiramente. Vivia no carrossel das antecipações ou no espiral do passado. Aquele caldo preparado por mim e congelado em pequenas porções, para facilitar a engrenagem do cotidiano, teve o poder de me chacoalhar. Santo graal e elixires de vida devem rever suas magias. Agora o lance está no grão.

Sempre retempero quando descongelo. Mais alho, mais cebola, mais louro, cúrcuma, cebolinha. Uma poção mágica estava em andamento mesmo com a bruxa sonolenta e desconectada. Estava bem gostoso e aquela garfada ratatuiana, me levou ao presente. Saboreando-o percebi como estava mal sentada e me dei conta de que fazia tempo que não parava para vivenciar o momento, com atenção para cada função. 

Os olhos viram as árvores, o céu, os pássaros, os filhos, a comida e tudo ao redor de uma maneira real. O barulho da construção do prédio vizinho surgiu juntamente com o latido do cão e o pulsar do coração. A toalha da mesa tinha já uma trama gasta, mas continuava delicada ao toque, o copo d’água gelado suou a mão. O cheiro da cebolinha se misturou ao cheiro do bolo de banana no forno, com cheiro de menino crescendo. Contraluz, os pelos dos felinos bailavam no ar, reivindicando participação nesse momento de hipersensibilidade. Uma tomada de consciência do caos vivido por anos, quando mente e corpo desencontrados cumpriram suas tarefas e deixaram de ser um diagrama interligado para serem dois campos distintos e desconexos.

A vagem tinha me aterrado. Me vi na experiência do jardim de infância. Copo, água, algodão e fava. Põe na luz, põe água, aguarda, acompanha e espera. Vai brotar, vai germinar, desenvolver e crescer.

Vou ter que mudar minha dieta e acrescentar o feijão em mais refeições para não esquecer que, para lidar com o sofrimento e desfrutar do caminho é necessário viver o presente. Clichezão que deve ser temperado com louro, alho e cebola.