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Maria

Maria foi a última a ser concebida e antes de ser já vinha com uma missão. Cuidar. Cresceu com essa palavra entalhada na coluna. Foi ser cuidadora.

Cuidou de amigos, famílias e se viu feliz ao cuidar de tantos, menos de si. 

Maria não dava trabalho. Não pedia ajuda, não incomodava. Cuidava. Gostava de ser servil. Com os anos, Maria sabia que algo estava errado, pois sua raiva aumentava e seu descolamento do mundo real também. Continuava a cuidar. Agora tinha feito gente e ficou mais cuidadora ainda. Maria foi ficando doente. Não sabia mais o que gostava, o que queria. Não tinha sonhos, desejos e não conseguia ver nada além da fazedura cotidiana de ser facilitadora de vidas alheias. De preencher quesitos que não lhe pertenciam. Tentou inventar um novo eu, ao mudar línguas, cabelos e gostos. Maria não sabia se cuidar. Maria não podia se ouvir.

Ruiu e cacos se espalharam. Maria acordou doída e escreveu uma carta a si mesma. Maria agora está cuidando dela.

Caos

Engoli. A garganta sangrou.

Ao meu redor, ela engoliu e vomitou. Aquela recomeu. Ela lá, replantou.

Cactus. Caos. Cacofonia.

Bom mesmo são os japoneses.

Kintsugi.

Cicatrizesdouradas.

Ano passado, eu refiz meu vaso, colei os cacos com a minha tinta vermelha. 

Minha amálgama que de dourada nada tem.

Um rejunte de suor, pranto e gozo.

Religando a mim mesma e me transformando em novas cerâmicas prontas para se estilhaçarem novamente. 

A qualquer momento.

Esse ano, vou recolar de azul.