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Carta de A para Z

Terra, algum mês, depois de 2020

Minha cara A.

Mando notícias daqui. 

Parece-me impossível definir o tempo. Não consigo mais anexar lógica ao calendário. Não sei se é mais necessária essa contagem, esse agrupamento de dias, meses, anos. Consigo só amontar necessidades. Físicas, emocionais e sensoriais.

Quero muito saber de ti. Escreva-me se achar que assim deve ser. Aprendi, duramente, a não usar mais cobranças, nem para outres e nem a mim mesme. 

Essas letras vão hoje para te contar de mim, de como estou, onde ando e como vou vivendo. Senti uma necessidade enorme de partilhar contigo o que se passa aqui.

Estamos em grupos, somos muites. Mascarados, indignades com tudo. Fizemos merda com a gente mesme. Muites já perceberam, uns tantos ainda não. Precisamos voltar ao poder da terra, daquilo que fomos feitos. Estou extremamente decidide a usar meu corpo como manifesto. Não temos mais vozes, nossos rostos estão cobertos, mas você verá que eu consegui uma cobertura translúcida que ajuda muito a manifestar minha força. Nos expressamos através de papeletas com símbolos. Dizem mais do que palavras e mais do que qualquer língua já criada.

Raios que nos partam. 

Raios que partam o que dividiu, o que segregou, o que foi concebido para hierarquizar, para subjugar. 

Chega. 

Vamos ter que reiniciar essa história. Qualquer novo marco zero. 

Reaprender a andar, falar, trocar. Acredito nisso e outres também.

Espero que os céus atendam meus pedidos e mandem essas descargas para rachar com as fundações amaldiçoadas que construímos ao longo de nossas existências.

Como disse antes, tenho questionado muito os dizeres. Como podemos compreender através desses códigos linguísticos? Mando uma imagem e o meu olhar dirá por mim.

Saudades sem fim,

Z.