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Bigorna, Martelo e Estribo

Caro aparelho auditivo,

Escrevo essa carta na urgência, para que possa me auxiliar e talvez sanar a bizarrice de meus tímpanos.

Mantenha esse escrito em segredo. Não o compartilhe com ninguém pois tenho que confessar que há uma menina enclausurada dentro de mim. Recentemente, eu comecei a escutá-la falar. Hoje o som é audível e eu a ouço com clareza, mas demorei para ganhar essa destreza.

Voltemos ao começo: Tudo começou com você tampado. Tapado. Ficava abafado ou com aquela sensação de “subir a serra”. Depois vinham zumbidos dos mais diferentes acordes. Martelo, bigorna e estribo deveriam estar avariados e precisando de algum reparo.

Os sons eram espaçados e não vinham com frequência. Com o passar do tempo, com acontecimentos externos que mexiam profundamente na minha vida física, emocional e cotidiana os ruídos foram se tornando mais frequentes e agora eu tinha a sensação de que as mensagens vinham de alguma caverna profunda. Beeeeem longínqua ou até debaixo d’agua. Isso! Exato!! Eram sons vindos das profundezas do mar. Sem forma, puro sentimento. Sem corpo, pura profundidade. Sabe quando você tenta conversar com alguém debaixo d’agua? Uma mensagem criptografada pelas bolhas de ar que se formam na junção da voz, ar e respiração.

O tempo foi passando e fui trocando cotonete por cuidados especiais, vento por gorros e cabelo curto por cachos que cobrem minhas aurículas para tentar preservar, para tentar barrar algo que dava medo, mas ao mesmo tempo era tão necessário e tão profundo.

Hoje a menina fala. Ela sussurra no café da manhã, ela fala no almoço e, se precisar, ela grita na hora do jantar.

Veja aparelho auditivo preciso que você não se intrometa mais nesse diálogo. Desculpe escrever essas linhas mal traçadas. Mas demorei um bocado para conseguir essa conexão direta com essa habitante. Ela sempre esteve aqui, eu é que tinha ignorância e faltava-me coragem de dar-lhe ouvidos. Deixei o caminho livre para que ela não fique nunca mais enclausurada em desencontros e medos.