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Dolores, a panela de pressão e as malas

Escrevo para Dolores, por Dolores.

Ela tinha muitas malas, enormes, carregadas de antiguidades, de velharias e insistia em continuar guardando. Frequentemente ela até abria as malas e tirava pó para não deixar que tudo sumisse.

Dolores tinha uma panela de pressão. Uma panela particular, que precisava de ajustes e certas instruções para funcionar. Uma panela que pegava pressão em temperatura e atmosfera especificas. A vedação precisava de certo tempo para que aquele caminho de ar e o barulho típico aparecessem. Um som de bexiga esvaziando, um som que vem na mente de qualquer um que já foi criança…

Dolores queria viajar, Dolores queria se mudar para um lugar onde não houvesse malas e nem panelas de pressão. Dolores queria partir para um espaço onde não fosse permitido bagagens e nem som de bexiga esvaziando. 

Dolores precisava aprender a sair sem levar nada, sem precisar encher para esvaziar.

Dolores pensou que apenas um alfinete, um prego ou uma estaca fossem capazes de furar suas malas e sua pressão. Assim, aos poucos as velharias seriam perdidas na viagem e ela não perceberia as ausências. Esse mesmo alfinete deveria ser capaz de deixar seu ar esvaziar para que também não pegasse pressão. 

Ela tinha muito medo da panela, daquelas velhas que explodem e causam um estrago enorme. Derrubando gentes, coisas e tudo, sem possibilidade de conserto ou reparo.

Dolores comprou uma estaca, arrombou suas malas, furou sua caçarola e adquiriu uma nova dor. 

Estava latejando, latejando em uma cadência descompassada que nenhum eletrocardiograma seria capaz de acompanhar sua frequência. Não uma dor dilacerante, daquelas que deixam a gente com dificuldades de respirar. Uma dor companheira, sorrateira, que passeia subcutânea e vai invadindo os cômodos internos lentamente e, quando se percebe ela tomou o espaço e já se convidou para o chá da tarde. Uma dor que mata lentamente aquela esperança pueril, aquela qualidade que as crianças possuem largamente dentro delas, um crer sem fim. 

Essa dor faz qualquer um desacreditar e achar que só uma fábula será capaz de reverter esse amargo que impregna seu corpo. Dolores agora é só Dolores.