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campainha

Sinetas

A campainha tocou. Estranho, muito estranho. Não conhecia o som da minha sineta. Nunca tocara antes, mesmo que fizesse pouco tempo que eu habitava esse novo espaço. Porque a gente não checa o som da campainha antes de escolhermos onde iremos viver? Checamos tantas coisas. Se fica perto de locais que gostamos ou precisamos, se a luz do dia entra pelo Norte ou pelo Sul, qual andar e tantas outras coisas na nossa lista de preferências e possibilidades. Mas a campainha, nunca. Nunca escolhi meu canto pela melodia deste chamado. Preciso incorporar na lista para qualquer mudança futura. Importantíssimo saber o que esse primeiro impulso melódico irá provocar em mim.

A campainha tocou novamente. Demorei a perceber o que era, divagando pelos sons que me interessavam e que me fariam abrir a porta de meu ninho, de meu casulo. Por fim, abri e não tinha ninguém, apenas uma caixa. Uma caixa de papelão. Tamanho médio. Craft.

Hesitei se deveria pegar ou não. Não estava endereçada a mim, mas sim ao meu ninho. Olhei para meu espaço ainda vazio, mas já cheio de tanto. De tanto de mim, de tanto de expectativa, de passado e de presente. Nunca de futuro.

Ali ficou a caixa fechada por um tempo, querendo ser aberta e pertencer. A decisão só aconteceu quando percebi que meu teto era meu. E ali, mulheres e suas histórias, mulheres e seus trabalhos, toda a ancestralidade feminina transbordou. 

Minha casa virou fortaleza, proteção e eu não estava sozinha e pertencia a uma trama invisível com elas. Todas elas.

Esse texto foi inspirado no tema da seleção Carinho no Ninho. Já conhece?