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Risadotas

Risadotas

Carta para minha irmã de alma,

Querida C.

Você se foi. Nunca imaginei que você fosse partir tão cedo. Tão cedo para mim, que te queria por muitos anos perto de mim. Sonhávamos em ir morar em um asilo de velhinhas e passar nossos últimos dias rindo e fazendo xixi em nossas fraldas geriátricas.

Mas o tempo foi imprevisível e você se foi antes disso. Chorei sua partida e enlutei como pude. Mas vivemos um bocado e parte dele foi no riso, na gargalhada, na pura diversão e isso deve ser guardado em palavras. 

Não quero te escrever uma carta triste, melancólica. Quero exaltar a nossa comunhão através do absurdo, do clownesco de nossas experiências. Da risadota fácil e livre que valia um comprimido antidepressivo por vez.

Lembra de quando você comprou um chapéu maluquíssimo e andava por aí com ele? Toda de preto, porque preto era a sua cor, e com aquele chapéu incrível? Lembra do dia que achei que você tinha entrado em “nirvana” ao tacar o chapéu pela janela do carro em plena marginal? E eu, com medo de que seu surto psicótico se expandisse, decidi fingir normalidade nesse ato tão corriqueiro de atirar adereços pela janela? Na verdade, você tinha tacado o treco colorido no banco de traz do carro, mas eu que acreditava no impulso de suas ações, e te admirava demais por isso, demorei para perceber o acontecimento real e foi uma cena de Beckett. Quantas calcinhas molhadas de xixi!!!!!! Quantas risadas largas e poderosas em ruas, teatros, palcos.

É isso que fica, minha amada amiga, essa comunhão através do riso. Saudades eu tenho e boas lembranças também.Você está em mim, nesses momentos e para sempre. Honro nossa amizade e nosso amor. 

Um beijo de cara vermelha, dor nas bochechas e dor na barriga de tanto desse gozo alegre.

Esse texto foi inspirado no tema da seleção Risadota. Já conhece?